A Carta

O texto abaixo eu escrevi em um momento de dor e o postei em meu site antigo gerando muitos comentários dos quais não esquecerei. O texto relata algo muito particular em minha vida, mas que pela alegria trazida por sua descoberta, em oposição a tudo que passava então, resolvi compartilhá-lo com o mundo.

Eu pensei em reescrevê-lo já que após a quinquagésima lida eu não via mais nada fora erros e palavras que preferia não ter usado. Ainda assim o mantive como o escrevi uma vez que acredito este trazer toda a carga emocional que sentia quando o produzi.

 

“…e é com enorme pesar que neste domingo último, dia 29 de novembro de 2009, ficamos sabendo que Maria Heloisa Gondim, minha mãe, veio a falecer às 15:05 em decorrência da falha múltipla dos órgãos e…”

Este é o fim de um dos capítulos. Um fim triste e doloroso. Um fim que mesmo que soubesse que um dia viria a acontecer, não queria pensar nele. Um fim que mesmo que eu pensasse nele, não aceitava. E mesmo que aceitasse, não o desejava.

 

E ele veio. Senti este fim com todo meu ser. Com toda minha dor.

Mas como disse, este foi o fim de um dos capítulos. E agora contarei como a história começou.

 

“Fortaleza, 29 de março de 1974.

Querida madrinha Angélica, saudades!

 

Hoje ao escrever-lhe estou, com Nonato, muitíssimo feliz. Deus é muito bom. Em sua infinita bondade e sabedoria enviou-nos dia 27 último, as 4:30 horas da tarde um lindo menino. Estava em casa, imediatamente de volta da costureira, Preta, quando ao atender a cigarra da porta encontrei na soleira um menininho envolto em cueiros, no chão. Junto um saco plástico com leite pelargon, nidex, 2 mamadeiras. Fiquei louca! Apanhei a criança e sua alimentação, pus na cama e corri para ver se via alguém. Desci a procura de Maria do Carmo que acabara de sair, chamei-a e perguntei se vira alguém deixando o prédio. Ninguém deu notícia. Subimos e ao ver direito a criança, encantei-me. Corri a casa de Maria Altina para telefonar ao Nonato. Avisei-lhe. Sofreu um impacto inicial pouco favorável ao fato. Não fui parturiente mas sofri. Suei frio, fiquei de pernas bambas, o coração disparado e com toda angústia da decisão a tomar. Corri ao banco falar com meu neném grande! Encontrei-o cercado de amigos que o ajudavam nesse impasse.”

 

Esta curta carta minha irmã encontrou junto com muitas fotos antigas enquanto procurávamos por uma para o santinho de nossa mãe, muitas das quais eu nunca vira. Ela leu a carta e veio a mim de olhos cheios de lágrimas perguntar se eu já a havia visto. Peguei aquele pedaço de papel amarelo com a ilustração bem simples de um coelho e a frase “Se tu me cativas, minha vida será cheia de sol… Exupéry” e li seu conteúdo.

 

Não sei explicar o que me tomou. Minha mãe havia falecido há apenas dois dias e sepultada há um e a tristeza do fato ainda apertava forte meu coração. No entanto, ao ler a carta, algo mudou. Eu me enchi de alegria, de orgulho, de energia. Eu estava calmo, mas eufórico. Eu me senti privilegiado. De repente eu queria compartilhar a carta com o mundo.

 

E eu lhes conto como a história continuou…

“E então eles acolheram aquela criança e tornaram-na sua. Heloisa a ensinou, a viu crescer, a alimentou, assistiu aos seus primeiros passos, suas primeiras palavras e soube que, um dia, a veria ganhar o mundo, livrando-se de suas asas e proteção.

 

Mas o destino, os deuses, a vida, a probabilidade, ou quem quer que seja, nos visitou um dia. Heloisa estava em coma e assim ficou por dois longos meses. Quase partiu sem um adeus. E depois dessa aflita espera, ela renasceu.

 

E então nos acolhemos aquela criança e tornamo-na nossa. Renato a ensinou, a viu crescer, a alimentou, assistiu aos seus primeiros passos, suas primeiras palavras e soube que, um dia, a veria ganhar o mundo, livrando-se de suas asas e proteção.”

 

O que veio entre este parágrafo e o primeiro lá em cima foram muitas alegrias, tristezas, dores, gargalhadas, preocupações. De tudo um pouco. Nós nos completamos e invertemos papéis, entendendo que nenhum é simples demais ou difícil demais. Mas com amor tudo se resolve.

 

Agora, inicia-se um novo capítulo.

E termino aqui como começo meus dias: Mãe, eu te amo!

2 pensamentos sobre “A Carta

  1. Renatô,
    Estou adorando seu jeito de escrever e me desculpe antecipadamente se o meu português não é a altura do seu (sei que você me desculpe, né ?!)
    Não pensava gostar ler um blog – estou pensando em escrever o meu franco-português do Brasil depois ter lido o seu e aquele do meu aluno:

    http://caatingas.blogspot.com/2011/08/jantar-luz-de-diamantes.html

    Adorei o fato que você parou de assisitir a tv há 8 anos (PARABÈNS) nao sei de nada em video games nao tenho interesses inclusive…Mas eu jogo que nem um viciado a esses dois :

    http://fr.play.yahoo.com/games/rules/literati/basics.html?page=lt

    http://mahjonggratuit.fr/mahjong/shanghai-dynasty/

    Gostei também muito no seus textos o fato de vc ter colocado muitos links dentro das linhas…

    Afinal se o seu(s) livro(s) não sair em papel reciclado há de ser criado através deste blog va em frente que você já tem o leitor “Joelho nela” que está acompanhando os capitulos ..!

    abraços
    eric claude leurquin

  2. Querido!
    Emoção e ritmo não faltam aqui. Não tenho dúvidas sobre isso.
    É difícil colocar em palavras sentimentos, mas eles sobram, se espalham pelo texto e caem direto no colo do leitor.
    Foi um prazer ler, silenciosamente e em voz alta.
    Abraços
    Ceres

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