O Espírito

Chegou a hora. Tenho de me arrumar para a festa de natal. Tomo banho pensando na forca ou injeção letal que se seguirá. Tento escolher uma roupa que camufle meu desinteresse. 

Vejo as ruas passando e comparo com a cena de algum filme no qual o personagem condenado à morte anda vagarosamente para encontrar a última sala e as últimas pessoas que verá na vida.
A mousse de chocolate está bem gelado e com cara boa. Isso certamente os distrairá. Assim falarão dele, de como está gostoso e consistente, por um bom tempo. Até pedirão a receita.
Silêncio no elevador. A porta abre e o que me restam são alguns segundos de sinceridade. É melhor sorrir agora.
Feliz natal, digo. O que quer que isso signifique. Saúdo um por um com os lábios esticados, quase engessados na face. Se o galo cantar, morrerei assim.
Apertos de mão, abraços, que bom que todos parecem felizes. Deve ser crime aparentar de outra forma. Não gostaria de contaminar o humor de ninguém.
Sentarei onde há mais vento. A companhia ao lado não importa. Qualquer uma puxará assuntos sobre os quais não terei interesse em discursar, mas por cortesia, o farei.
Todos estão comedidos, vozes baixas, ânimos domesticados. Salgados espalhados pela casa. Refrigerantes regando os refluxos de todos. Buscarei água.
As conversas oscilam entre coisas boas, más, absurdas e engraçadas. Em breve passaremos às que deixarão alguém encabulado. O bullying sempre está presente nessas reuniões.
O jantar está servido. Estou cheio dos salgados, mas comer ajudará a passar o tempo. Que bom! Frango deformado com 70% de carne no peito e nas coxas. Tem peru, mas não vejo graça. Um pouco de farofa para me fazer sofrer um mais… quem sabe assim consiga um tíquete para casa mais cedo.
Hmm, está tudo muito bom, mas não aguento repetir. Aproveitarei o momento em que todos estão de boca cheia para ter um instante de paz.
Engraçado assistir às expressões deles. Uns sorriem constantemente, outros jamais. Talvez ninguém esteja ali por escolha. Enquanto uns fazem sala, outros parecem pensar no que poderiam estar fazendo se estivessem em casa. Assistindo a algo ou lendo. Talvez até dormindo, mas não ali.
Quem ainda acredita no natal? Quem se permite ser invadido por essa emoção sazonal cara, regada a confraternizações cada vez menores? Prefiro o encontro no bar ou na praça onde ninguém é obrigado a estar feliz pelo nascimento de um desconhecido com 1001 caras e pensamentos, ora tão controversos que não se sabe mais no que se acredita.
Maravilha, os primeiros estão dando adeus. Bastam os pioneiros partirem que os demais os seguirão em breve.
Aqui vamos. Usarei essa cara por mais uns segundos e a guardarei por um ano. Se não servir então, faço como com os enfeites de hoje em dia, todos descartáveis, diferentes daqueles que me traziam tanta alegria quando os pendurava junto com a família.

C. R. Gondim

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s