O que vem de dentro

Olá, queridos escritores/leitores.

Ontem escrevemos (eu e @polineura) sobre zumbis no A Morte. Para isso deixei transbordar um pouco de mim na postagem e até uma foto do cemitério onde estão enterrados meu pai, mãe e avó, eu coloquei. Cemitério São João Batista, Fortaleza, Ceará.

Eu venho aprendendo desde a adolescência a me imprimir no papel. Eu uso o que tenho para forjar falsos momentos (fui redundante?) fantasiosos (agora sim) e dar-lhes pitadas de realismo baseando-me nas alegrias e tristezas pelas quais passei.

Quão mais verdadeiro pode ser um momento em que um personagem ao perder sua esposa para um assassino pega emprestado essa dor da perda de seu escritor que já sentiu tão de perto o sofrido adeus regado à dor da impotência por não ter podido agir contra as forças do destino/deus/carma/whatever?

E assim eu venho, revivendo momentos incríveis (positivos e negativos) a cada virada de página. Relembrando do alívio de ver um ente querido, perdido na palavra de incerteza dos médicos, voltar à “vida” após 60 dias em coma. Ruminando momentos de tensão ao ver um desconhecido alcóolatra com quem divido o lar, matar-se aos poucos enquanto em seus momentos lúcidos se engana com sua ideia de viida pseudo-regrada de um diabético que já perdera um dedo para a doença.

Obviamente a vida não é formada somente de momentos tristes e alegres. Temos aqueles momentos de dormência, onde não parecemos sentir nada. Passamos por tensões e aflições e surpresas que, por vezes, nem uma boa descrição é capaz de repassar o que sentimos.

Escrever tem me ensinado a lidar com muito do que sinto e espero que me traga mais conhecimento sobre mim e sobre o “eu” que pouco conheço. Eu torço para que o ato de desdobrar mundos e expô-los aos outros me traga compreensão de meus atos, descabele as aranhas de que tanto tenho pavor, tire as máscaras dos palhaços e me traga mais confiança em mim mesmo.

Escrever para mim é uma chave para a prisão da carne que visto diariamente. Sobre esta carne tenho a moral e os preceitos sociais devidamente costurados, julgando-me e aos meus atos. Porém, quando giro essa pequena chave e abro o mundo que existe dentro de mim, liberto-me de tudo que me poda e só assim posso ser quem sou, ignorando tudo e todos e, de quebra, criando universos que só eu sou capaz de criar.

O que é escrever para você? Me conta?

Abraços

C.R.Gondim

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4 pensamentos sobre “O que vem de dentro

  1. Eu nunca consegui definir escrever para mim. É quase como respirar. Você se pergunta: o que é respirar para você? É algo tão natural em mim, como se fizesse parte integrante de quem eu sou, do que eu sou, e daquilo que me faz ser qualquer coisa.

    Mas eu acredito que, meio como você, essa projeção do “eu” no papel existe, e muito. A criação de alteregos, a reprodução de sentimentos – sejam eles bons ou ruins, se é que pode-se classificar um sentimento como ruim, a criação de falsos ambientes, situações; a elaboração de perguntas que talvez se quisesse fazer e de respostas que talvez se quisesse responder. Eu tenho muito disso quando escrevo, eu gosto de projetar e permitir que essas projeções realizem o que eu não consegui realizar nesse plano físico ao qual estou inserida.

    Sei lá. Acabo de considerar que escrever deve ser, para mim, como uma fuga do “eu” quotidiano. Uma representação do querer em conjugação com o poder. Afinal, nos escritos, mesmo que muito drama aconteça, as minhas personagens acabam sempre realizando aquilo que elas se propuseram a realizar. Hm. Talvez eu deva pensar melhor nisso. =)

  2. Emprestar as próprias dores para compôr uma obra é como dar cor a um desenho em preto e branco. Fica tão mais tangível, e (com o perdão da redundância) tão doloroso…! Sabe, prefiro pensar que é uma maneira de deixar escapar sentimentos há muito aprisionados: banalizar a dor sem desmerecer quem/ o quê a provocou…

    Sobre o outro ponto, concordo com o que diz sobre o ato de escrever fazer valer um auto-conhecimento, afinal, entende-se muito mais sobre si mesmo dando vozes às criaturinhas do papel do que fazendo análise. O problema é perceber que você não deixa de ser um personagem, sobre o qual não tem a menor certeza se vai chegar ao terceiro ato conforme o planejado!

    Enquanto isso, vamos escrevendo!

    =D

    • A dor que sentimos é a experiência que temos naquele assunto que escrevemos… se senti a dor da perda, como ser fiel à ela se nunca senti tal dor? Imagino que possamos emprestar dores… quem sabe, não da perda em si, mas do medo da perda de quem um ente querido esteve muito doente.

      Sentimento é o cimento.

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