O mal do criador…

Bom dia!

Eu não sei o que é mais assustador…

Saber que minhas idéias não param de vir, sempre num grande estouro, como se fossem “búfalos ensandecidos” (acho que gostei dessa expressão. já é a segunda vez que a utilizo) atropelando-se uns aos outros, ou de descobrir que deram um nome de “doença” pra isso.

“A Doença do Criador de Mundos”. Bem, juro que quando li sobre a tal mazela, não a levei muito a sério e ainda imaginei o tom sarcástico de quem escreveu a matéria. No entanto, não posso ignorar toda a similaridade dos sintomas com o que passo diariamente.

Do túnel do tempo, de 6/07/2010… (extraído de meu antigo site)

No dia 28 de junho de 2010 li uma publicação no blog de uma amiga com o título de “Criando Mundos” onde ela menciona uma doença chamada de “doença da construção de mundos” (WBD – world-buidling disease). Na época eu não levei muito a sério e achei até engraçado.

Ontem estive a surfar procurando um material para a publicação “Quem é esse personagem?” e me deparei com uma matéria mais aprofundada sobre a tal doença. Sem querer enrolar muito, vou listar aqui alguns sintomas dessa aflição mental:

 

  1. -Estágio I – um dos primeiros sintomas é o fato do escritor começar a dar mais e mais atenção aos personagens terciários. Isto é, você cria uma história com 6 personagens, dos quais 3 são principais e os demais são de apoio. No entanto, em certa cena a personagem principal pede uma pizza e o rapaz da entrega, de repente, você está se perguntando com que outros personagens ele teria conexão.
  2. -Estágio II – Agora, o homem da pizza não só tem um papel maior em sua narrativa como também tem história de vida, desejos, voz e um futuro promissor. Gente, ele é só um entregador de pizza. Não era nem pra ter um rosto.
  3. -Estágio III – esse estágio é atingido quando o homem da pizza deixa de ser o homem da pizza e passa a ser outro personagem sem nenhuma conexão com aquele que entregou pizza para nossa heroína, embora aquele personagem ainda exista, mas os dois não têm nenhuma conexão um com o outro.

 

Isso leva a uma criação sistemática de personagens e, em meu caso, ao que parece ser o “enriquecimento” do que antes parecia pobre e fraco. Agora, em vez de um entregador de pizza somente, eu tenho um entregador de pizza e um executivo que, ao ver nossa heroína subindo as escadas, resolveu pagar 5 reais ao entregador de pizza para que ele mesmo entregasse a encomenda no apartamento de seu interesse amoroso.

 

Mas isso não é tudo. Outro sintoma é a procrastinação. Quer dizer, onde está o final dessa história? Ela nunca termina? Não, por sempre aparecer novos elementos e coisas mais interessantes. A coisa vai se arrastando e se estendendo indefinidamente como se não houvesse um plano, um projeto a ser seguido. Incrivelmente eu crio um plano de ação, mas quando coisas novas surgem, este plano é prontamente deixado de lado.

 

Vou tentar resumir (hahahah!) minha jornada.

Mais ou menos 8 anos atrás eu tive um sonho que, como faço com muitos deles, anotei em um caderninho.

Depois, enquanto tomava banho (meu santuário, minha fuga, o local onde tenho minhas idéias), aquele sonho foi mudando de forma. Na verdade, eu tive outras idéias que posteriormente foram unidas ao conceito central do sonho e tudo começou a tomar forma.

Foram vários sonhos, várias idéias e a coisa foi crescendo.

Dessa brincadeira já surgiram grupos, facções, raças, línguas, poderes, ideologias, deuses, semi-deuses e muitos personagens.

Porém, tudo começou com Arthur. Ele foi o primeiro. Depois veio Beth e Afrânio. Só que eu precisei de Sandro também. Então surgiu Samara e Sandro deixou de ser apoio e agora é principal.

Este semestre  (2010.2) eu me comprometi com meu curso de pós-graduação a escrever um livro e isso me obrigaria a escrever começo, meio e fim de uma vez por todas. E pus a mão na massa e escrevi o livro Os Pilares do Conhecimento (provisório). Nele Samara, uma Puritana (facção religiosa), narra sua jornada que acaba por revelar detalhes do passado e desaparecimento de seu pai e lhe apresenta um novo destino. Um que mudaria não só a sua vida como a do planeta. TAN DAN!

Eu escrevi boa parte dele, mas minha orientadora achou complicado demais para iniciar tudo, para introduzir o leitor neste mundo louco. Ele foi colocado de lado.

Então comecei a escrever A ESCOLHA. Nele Robson narra sua jornada de descoberta, entrando aos poucos neste mundo e se descobrindo um Puritano. Este eu escrevi, mas em menos de 70 páginas ele se resolveu e eu murchei. Achei que faltava tanta coisa ser contada. Tanta coisa que não seria contada por um humano comum, mas um já inserido neste mundo bizarro e obscuro.

Não preciso dizer que minha infelicidade me jogou novamente numa poltrona e me fez começar a escrever uma lombra torta. A nova história chamou-se ARQUIVO 032 e agora era contada por Sandro, um Temporal, em dois tempos de sua vida. Ele em 2002 e ele, já desencarnado na forma conhecida como Momento, que o permite saltar de momento em momento, como desejar. Bem, não exatamente como desejar por que essa história é testemunhada por ele logo após sua ascensão e ele ainda tem pouco conhecimento e controle do que pode fazer.

Isso me levou a criar narrativas confusas, ora Sandro 2002, ora Sandro desencarnado, ora os dois… e o pior: 80% disso tudo é diálogo. Grande parte do todo ainda está em minha cabeça e 50% disso seria colocado no papel para descrever e ajudar na narrativa em forma de ilustrações, recortes, layout diferente, etc. Afinal, é um trabalho para um curso de Design Gráfico.

E aonde isso tudo me trouxe? Boa pergunta.

E qual a boa resposta? Não tenho uma.

…mas voltando a doença…

Uma coisa dita pelo psiquiatra Dr. Logan “Lovey” Quackenbush, o problema em se diagnosticar esse distúrbio mental é o fato de seus sintomas se assemelharem a ações cotidianas de um escritor.

Preocupado com isso, liguei para um amigo psiquiatra que me disse de uma forma bem simples: se não está atrapalhando sua vida, se você não deixa de comer, dormir e viver por causa disso, não se preocupe.

Então, já estando ciente desta mazela, digo, se essa WBD existe mesmo e não é uma bem elaborada piada, é só ficar de olho…

Mas me pedir para parar de construir mundos, é me pedir para deixar de viver!

Hora de almoçar!!

Kd o almoço? Tá, enquanto espero, vou criar um sistema solar acolá…

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3 pensamentos sobre “O mal do criador…

  1. Ah, Renato! Eu não acho que seja uma doença. Você é mesmo ultra criativo. Apenas isso. A verdade é que muitos têm várias ideias incríveis, mas se esquecem de partir de uma premissa mais simples, aquela em que é possível vislumbrar “começo, meio e fim” de maneira concisa. Normalmente, as histórias mais simples contribuiem para desenrolar grandes narrativas. Mas isso não é uma regra, já que nada é baseado em fórmulas (exceto a matemática, onde tudo é muito lógico, rs). De qualquer modo, se te apetece criar um mundo complexo, uma epopeia onde a trama possa se desenrolar em vários universos, tente experimentar começar por um mote mais simples. Aquela trama em que possa existir um fio condutor para as outras histórias, estas sim, mais complexas, e que por conseguinte possam ser exploradas com mais dedicação futuramente.

    Ainda assim, temos de facilitar a vida do leitor. Escrever é um processo árduo, mas pode ser ainda pior para quem ler. O fluxo de ideias, que conduzem a trama no início, pode encher a história de excessos, e, quando isso acontece, é o momento de selecionar o que realmente interessa.

    Tenho certeza que tão logo você terá um insight incrível, e vai se desvencilhar deste impasse.

    Abração!

    • Mais uma vez, obrigado!
      Olha, às vezes penso que estou aqui para complicar mesmo. Primeiro, pq uma de minhas inspirações foi o livro House of Leaves… com layout tão complexo e idas e vindas tão tensas que não é um livro para os mais fracos. O processo de leitura é tão ou mais árduo que deve ter sido o de escrita. Para piorar, descobri mês passado que o livro tem uma trilha sonora feita pela banda Poe, da irmã do escritor, em cujas letras tem algo a mais que não está no livro. Quero dizer… é o que me atrai, extrapolar os limites, sair das linhas horizontais das páginas, saltar da folha, fazer o leitor girar o livro, interagir com ele de outra forma, apelar para outras mídias para completar o que se fez nos livros, na saga… acho que essa vontade me surgiu por causa da falta de concentração. Livros comuns me perdem facilmente. A história pode não ser suficiente para me segurar. Sei que tem de haver um esforço de minha parte… mas sempre me perguntei… e se fosse diferente… se houvesse algo a mais?

      Então, quanto ao livro para a especialização… vou terminá-lo como puder. Não será o produto finalizado. E muito provavelmente não será a história que eu quero lançada. Depois do Arquivo 032 já modifiquei tanta coisa que o tal arquivo nem é mais importante, hahahah. Mas enquanto isso, vou aprendendo como se diagrama e, enfim, faz um livro. Ao fim da especialização espero ter um bom conhecimento da coisa.

      Abraços!
      C.R.Gondim

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